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Recordações da casa amarela. Não é fácil a vida para um homem gaseificado. Já ninguém se lembra das minhas antigas proezas. Nem sequer para o circo sirvo, pois que ninguém parece interessar-se pelos meus tristes malabarismos.
Como o gás se comprime na botija, eu comprimo-me no interior destas enormes paredes amarelas, como um hospício que alguém subitamente virou do avesso e em cujo antigo exterior agora me encontro, encerrado para sempre.
Pensei em dedicar-me à religião, mas ouvi dizer que o meu deus, por ser gasoso, pode asfixiar quando invocado em doses excessivas. Se ao menos me enviasse um procurador, com uma mala cheia de dólares, como aconteceu ao meu amigo João de Deus em 1999...
Enviado de Deus - Sou Enviado de Deus.
João de Deus - Vou ser chamado?
Enviado de Deus - Não me deram instruções nesse sentido. És demasiado velho.
João de Deus - Serei poeira, mas poeira enamorada.
Enviado de Deus - Fui enviado para te entregar esta mala. Contém uma soma avultadíssima em dinheiro.
João de Deus - Quanto?
Enviado de Deus - Não nos prendamos com pormenores. És rico como Cresus. Podes comprar o que te apetecer.
João de Deus - Ter caprichos?
Enviado de Deus - Os mais extravagantes.
João de Deus - Derrubar governos?
Enviado de Deus - A partir de hoje és o homem mais poderoso da terra. Não tens de prestar contas a ninguém.
João de Deus - Nem sequer tenho que acender uma vela ao meu benfeitor?
Enviado de Deus - Nem sequer. Estás dispensado das acções de graças.
João de Deus - Nesse caso sou bem capaz de ficar com a malinha. O taco é em dólares?
Enviado de Deus - Podes trocá-lo para marcos. Vai sofrer menos flutuações.
João de Deus - Também me parece.
Como o gás se comprime na botija, eu comprimo-me no interior destas enormes paredes amarelas, como um hospício que alguém subitamente virou do avesso e em cujo antigo exterior agora me encontro, encerrado para sempre.
Pensei em dedicar-me à religião, mas ouvi dizer que o meu deus, por ser gasoso, pode asfixiar quando invocado em doses excessivas. Se ao menos me enviasse um procurador, com uma mala cheia de dólares, como aconteceu ao meu amigo João de Deus em 1999...
Enviado de Deus - Sou Enviado de Deus.
João de Deus - Vou ser chamado?
Enviado de Deus - Não me deram instruções nesse sentido. És demasiado velho.
João de Deus - Serei poeira, mas poeira enamorada.
Enviado de Deus - Fui enviado para te entregar esta mala. Contém uma soma avultadíssima em dinheiro.
João de Deus - Quanto?
Enviado de Deus - Não nos prendamos com pormenores. És rico como Cresus. Podes comprar o que te apetecer.
João de Deus - Ter caprichos?
Enviado de Deus - Os mais extravagantes.
João de Deus - Derrubar governos?
Enviado de Deus - A partir de hoje és o homem mais poderoso da terra. Não tens de prestar contas a ninguém.
João de Deus - Nem sequer tenho que acender uma vela ao meu benfeitor?
Enviado de Deus - Nem sequer. Estás dispensado das acções de graças.
João de Deus - Nesse caso sou bem capaz de ficar com a malinha. O taco é em dólares?
Enviado de Deus - Podes trocá-lo para marcos. Vai sofrer menos flutuações.
João de Deus - Também me parece.


