Domingo, Setembro 26, 2004

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Recordações da casa amarela. Não é fácil a vida para um homem gaseificado. Já ninguém se lembra das minhas antigas proezas. Nem sequer para o circo sirvo, pois que ninguém parece interessar-se pelos meus tristes malabarismos.
Como o gás se comprime na botija, eu comprimo-me no interior destas enormes paredes amarelas, como um hospício que alguém subitamente virou do avesso e em cujo antigo exterior agora me encontro, encerrado para sempre.



Pensei em dedicar-me à religião, mas ouvi dizer que o meu deus, por ser gasoso, pode asfixiar quando invocado em doses excessivas. Se ao menos me enviasse um procurador, com uma mala cheia de dólares, como aconteceu ao meu amigo João de Deus em 1999...

Enviado de Deus - Sou Enviado de Deus.
João de Deus - Vou ser chamado?
Enviado de Deus - Não me deram instruções nesse sentido. És demasiado velho.
João de Deus - Serei poeira, mas poeira enamorada.
Enviado de Deus - Fui enviado para te entregar esta mala. Contém uma soma avultadíssima em dinheiro.
João de Deus - Quanto?
Enviado de Deus - Não nos prendamos com pormenores. És rico como Cresus. Podes comprar o que te apetecer.
João de Deus - Ter caprichos?
Enviado de Deus - Os mais extravagantes.
João de Deus - Derrubar governos?
Enviado de Deus - A partir de hoje és o homem mais poderoso da terra. Não tens de prestar contas a ninguém.
João de Deus - Nem sequer tenho que acender uma vela ao meu benfeitor?
Enviado de Deus - Nem sequer. Estás dispensado das acções de graças.
João de Deus - Nesse caso sou bem capaz de ficar com a malinha. O taco é em dólares?
Enviado de Deus - Podes trocá-lo para marcos. Vai sofrer menos flutuações.
João de Deus - Também me parece.

Terça-feira, Setembro 14, 2004

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Themroc. Na Cinemateca, existe uma rubrica chamada "O que quero ver". Ora, nesta rubrica, são os espectadores (ou candidatos a espectadores) que escolhem os filmes, utilizando como meio o voto. Serve esta introdução para fazer o seguinte pedido: quando forem à Cinemateca, encontrarão uma urna de madeira e ao lado uma pilha de folhas de papel. Tirem uma (ou várias) destas folhas, em cada uma escrevam "Themroc" no nome do filme e depositem o resultado desta boa acção na urna supra-citada. Se por algum motivo este acto vos fizer impressão, não pensem que estão a votar. Algures, numa certa parte do Mundo, uma velhinha simpática ficar-vos-á muito grata para o resto da vida.

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«No Oriente, havia um mestre que meditava numa fraga.
Veio um discípulo e perguntou:
— Mestre, posso ficar consigo?
O mestre atirou-lhe uma pedra e disse:
— Cala-te e medita!
Passaram-se cinco anos. O mestre disse:
— Vem um cão preto pelo adro.
Passaram-se mais cinco anos, o mestre disse:
— Não há pirilampos no centro da terra.
Diz o discípulo:
— Tem graça, estava a pensar a mesma coisa. Já não morremos hoje!
Nisto vem um raio e fulmina-os a ambos.»

Mário de Carvalho, Fabulário

Segunda-feira, Setembro 13, 2004

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Fim da linha. Amigos, aqui termina esta empolgante saga. Apetecia-me agradecer-vos, mas tenho medo que o meu caloroso e desajeitado abraço vos queime vivos. Não se apoquentem, eu fico bem. Afinal, não sou o único a cair em desgraça. Também as estrelas do cinema mudo devem ter sofrido assim, traídas pelo sonoro, que expôs as suas vozes esganiçadas perante uma plateia impiedosa. A História é autofágica, come os próprios filhos, e nem sequer lhes dá tempo de escolher o tempero com que querem ser cozinhados. Mas eu fico bem. Posso ser uma espécie de super-herói analógico a quem a sociedade preteriu pela moderna tecnologia digital, mas terei ao menos a dignidade de não me queixar. Farei como alguém que tivesse comprado todos os stocks de válvulas do Mundo na véspera de este ver a invenção do transístor; ou seja, descobrirei como cozinhar as válvulas. No fundo, tudo pode ser cozinhado, apenas se tem que descobrir a temperatura acima da qual, na panela, a matéria prima se transforma em bolo alimentar. Amigos, quando sentirem uma chama dentro de vocês, um ardor intenso trepando pelo sistema digestivo até culminar na garganta, tenham então a delicadeza de lembrar-se de mim, pois estarei nessa altura convosco em espírito. Quanto ao corpo, será mais complicado, pois há muitas pontes e viadutos, e pessoas que se atiram deles, havendo até aquelas que escapam com vida, mas essas não tomaram antes uma dose suficiente de comprimidos. A sério, a sério, eu fico bem.